ESPECIAL | Pesquisas eleitorais ajudam a entender a disputa, mas podem influenciar o voto
Foto: Ilustração/IA
Por Diário do Baiano
Estudos mostram que levantamentos oferecem informação sobre o cenário eleitoral, mas resultados precisam ser interpretados com cautela e não representam previsão das urnas
A divulgação de pesquisas eleitorais se intensifica à medida que a votação se aproxima. Percentuais, oscilações, margens de erro e comparações entre candidatos passam a ocupar espaço diário no noticiário e nas conversas dos eleitores. Mas até que ponto esses números ajudam a escolher um candidato — e em que momento podem interferir nessa decisão?
A resposta encontrada em estudos acadêmicos é mais complexa do que parece. Pesquisas são instrumentos destinados a medir a opinião de uma amostra do eleitorado em determinado período. Elas oferecem informações sobre o nível de apoio registrado naquele momento, mas não determinam como o eleitorado votará dias ou semanas depois.
No Brasil, a legislação exige que levantamentos destinados ao conhecimento público sejam registrados no Sistema de Registro de Pesquisas Eleitorais, o PesqEle, até cinco dias antes da divulgação. Entre as informações exigidas estão metodologia, período da coleta, plano amostral, ponderações, margem de erro, nível de confiança, questionário, responsável estatístico e identificação de quem contratou e financiou o levantamento.
Informação pode entrar no cálculo do voto
Um estudo publicado em 2024 na revista científica Opinião Pública, dedicado ao comportamento eleitoral brasileiro, aponta que informações fornecidas pelas pesquisas podem ajudar o eleitor a avaliar o grau de competitividade das candidaturas. Esse conhecimento pode adquirir importância para quem considera o chamado voto estratégico ou “voto útil”.
Nesse comportamento, um eleitor pode deixar sua preferência inicial e optar por outra candidatura que considere mais competitiva, por exemplo, para tentar impedir a vitória de uma alternativa que rejeita. O trabalho observa que as condições para esse tipo de movimento existem nas eleições brasileiras, sobretudo em disputas multipartidárias e nos últimos dias de campanha.
Isso, porém, não significa que a simples divulgação de uma pesquisa faça automaticamente as pessoas mudarem de candidato. Um amplo experimento publicado no International Journal of Public Opinion Research, com mais de 23 mil participantes, não encontrou alteração nas intenções de voto causada apenas pela apresentação dos números. O estudo identificou um efeito mais limitado quando a informação enfatizava o crescimento de uma candidatura nas pesquisas.
Outros experimentos também encontraram resultados diferentes conforme o contexto, reforçando que o chamado efeito de “seguir quem está na frente” não ocorre de maneira uniforme entre os eleitores.
O risco está também na forma de interpretar os números
A pesquisa pode ser útil para acompanhar tendências, oscilações e a competitividade da eleição. O problema surge quando o levantamento é tratado como se fosse uma antecipação do resultado final.
Entre a realização das entrevistas e o dia da votação, eleitores podem mudar de opinião, pessoas ainda indecisas podem definir o voto e acontecimentos da campanha podem alterar preferências. Estudo brasileiro sobre as eleições presidenciais de 2022 encontrou evidências de que mudanças tardias de escolha são plausíveis e podem contribuir para diferenças entre os últimos levantamentos e o resultado das urnas.
Outro trabalho acadêmico que analisou mais de duas mil pesquisas realizadas no Brasil entre 2012 e 2020 mostrou que levantamentos feitos mais perto da eleição e com amostras maiores tendem a apresentar menores diferenças em relação aos resultados posteriores. Ainda assim, a própria natureza da pesquisa impede tratá-la como uma previsão exata da votação.
Há também evidências internacionais de que pesquisas podem modificar a atenção dedicada às candidaturas. Um experimento publicado na revista Electoral Studies constatou que participantes expostos a cenários com uma liderança ampla procuravam menos informações sobre candidatos que apareciam atrás, embora o efeito variasse de acordo com o perfil do eleitor e a dimensão da vantagem apresentada.
Por isso, um percentual isolado oferece menos informação do que o conjunto do levantamento. Data da coleta, tamanho da amostra, margem de erro, nível de confiança, método utilizado e evolução registrada por pesquisas anteriores ajudam a compreender o que aqueles números efetivamente representam.
A Justiça Eleitoral exige a divulgação de informações como período da coleta, margem de erro, nível de confiança, quantidade de entrevistas, instituto responsável, eventual contratante e número de registro. O TSE também esclarece que não faz controle prévio do resultado das pesquisas; o registro permite transparência e fiscalização, mas não representa uma certificação antecipada dos números apresentados.
Assim, pesquisas eleitorais podem ampliar a informação disponível ao cidadão e ajudar a compreender o cenário político, mas também podem entrar no cálculo de decisões estratégicas ou produzir interpretações equivocadas quando apresentadas como previsão. A literatura científica indica que seus efeitos sobre o voto existem em determinadas situações, mas variam conforme o contexto, a forma de divulgação e o próprio perfil do eleitor.

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