Estudo revela risco de perda de renda e aumento da pobreza no interior da Bahia
Foto: Joédson Alves/Agência Brasil
Por Diário do Baiano
Pesquisa da Universidade de São Paulo aponta que a redução ou o congelamento de benefícios sociais e previdenciários pode comprometer o comércio, os empregos e a economia de milhares de municípios brasileiros.
A redução ou o congelamento de benefícios sociais e previdenciários pode provocar uma forte retração econômica em cidades do interior do Brasil, especialmente nas regiões onde grande parte da população depende desses recursos para sobreviver. A conclusão é de um levantamento do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (Made), da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária da Universidade de São Paulo (FEA-USP), divulgado nesta semana.
A pesquisa mostra que aposentadorias, Bolsa Família e Benefício de Prestação Continuada (BPC) exercem um papel fundamental na economia dos pequenos municípios. Nas famílias mais pobres, esses pagamentos podem representar aproximadamente metade da renda disponível.
Como os recursos são utilizados principalmente na compra de alimentos, medicamentos e outros produtos essenciais, boa parte do dinheiro retorna rapidamente ao comércio local, movimentando supermercados, farmácias, pequenos estabelecimentos e serviços.
Segundo a economista Luiza Nassif, codiretora do Made-USP, uma eventual redução desses pagamentos pode desencadear dificuldades que ultrapassam as famílias beneficiárias, atingindo também comerciantes, trabalhadores e a arrecadação municipal.
Bahia está entre os estados mais vulneráveis
O levantamento avaliou a importância das transferências públicas nos municípios brasileiros e constatou que sua participação na renda é significativamente maior fora das regiões metropolitanas.
No Ceará, por exemplo, benefícios sociais e previdenciários representam aproximadamente 22% da renda agregada da capital e de sua região metropolitana. Nas cidades do interior, essa participação chega a 40%.
Para medir os possíveis impactos econômicos, os pesquisadores compararam cenários de valorização real dos benefícios com situações de congelamento ou reajustes sem ganhos acima da inflação.
Nas projeções para os próximos três anos, a renda agregada dos municípios do interior brasileiro poderia ficar entre 6,8% e 10,8% abaixo do patamar esperado com a manutenção da valorização real.
Na Bahia, assim como no Ceará, Maranhão e Alagoas, a perda projetada varia entre 10% e 13%. Os resultados representam simulações econômicas, e não reduções de renda já registradas.
Os cenários mais graves foram identificados no interior do Rio Grande do Norte, Amapá e Piauí, onde as perdas poderiam alcançar de 17% a 18%.
Milhões de brasileiros poderiam enfrentar a pobreza
A pesquisa também analisou o papel dos benefícios sociais na proteção das famílias mais vulneráveis.
De acordo com as simulações, caso os benefícios não tivessem registrado ganhos reais entre 2022 e 2025, aproximadamente 2,7 milhões de pessoas poderiam ter sido empurradas para a pobreza nos municípios situados fora das regiões metropolitanas. Desse total, cerca de 2,4 milhões estariam em situação de extrema pobreza.
A Bahia aparece com o maior impacto absoluto projetado entre os estados: até 336 mil pessoas adicionais poderiam ter entrado na condição de pobreza naquele cenário hipotético.
São Paulo aparece em seguida, com até 263 mil pessoas, e Minas Gerais, com até 251 mil.
Os pesquisadores destacam que, para famílias com renda de até um salário mínimo e meio por pessoa, os benefícios podem representar até 50% dos rendimentos. Por isso, a perda do poder de compra comprometeria despesas essenciais e reduziria a circulação de dinheiro nas economias locais.
O levantamento não anuncia cortes efetivos nem mudanças já aprovadas nos programas sociais. Trata-se de uma análise dos possíveis efeitos econômicos caso os pagamentos deixem de acompanhar a valorização considerada no estudo.
Na situação atual, o Bolsa Família passou por uma atualização de 15,04%, anunciada pelo Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome em setembro. Com a medida, o valor mínimo por família passou de R$ 600 para R$ 691, com aplicação na folha de outubro de 2026.
A pesquisa reforça a importância dos benefícios sociais e previdenciários não apenas como instrumentos de proteção às famílias de baixa renda, mas também como fontes de sustentação da atividade econômica nos municípios brasileiros, especialmente no interior do Nordeste

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