Carta provoca reação entre aliados e leva TSE a reafirmar resultado eleitoral
Foto: Charles Vieira/Campanha Flávio Bolsonaro
Por Diário do Baiano
Senador questionou a vitória de Lula sem apresentar provas de fraude e chegou a se declarar presidente eleito. Dirigentes partidários e integrantes da própria campanha defenderam o respeito às urnas.
Uma carta divulgada pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), na quarta-feira (28), provocou reações do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e de lideranças políticas que apoiaram sua candidatura à Presidência da República. No documento, publicado após sua chegada aos Estados Unidos, o parlamentar contestou o resultado das eleições presidenciais, alegou fraude sem apresentar provas e chegou a se declarar o verdadeiro presidente eleito do Brasil.
A manifestação ocorreu três dias depois do segundo turno, realizado no domingo (25), quando Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi reeleito presidente da República. Conforme os resultados oficiais do TSE, Lula recebeu 64.256.232 votos, equivalentes a 51,79% dos votos válidos, enquanto Flávio Bolsonaro obteve 59.826.041 votos, correspondentes a 48,21%.
Na primeira versão da carta, Flávio se apresentava como o legítimo vencedor da disputa. Minutos depois, o documento foi retirado e substituído por outro, no qual a expressão foi alterada para “líder do Brasil”. A acusação de fraude eleitoral, entretanto, permaneceu no texto.
O senador também afirmou que pretende comandar a oposição ao governo Lula a partir dos Estados Unidos, onde passou a permanecer com a família após deixar o território brasileiro.
TSE reafirma segurança das eleições
Diante das declarações, o presidente do Tribunal Superior Eleitoral, ministro Kassio Nunes Marques, divulgou uma nota oficial na noite de quarta-feira, reafirmando a regularidade do processo eleitoral.
Segundo o magistrado, as eleições transcorreram dentro da normalidade institucional e respeitaram a legislação e a Constituição Federal. Nunes Marques destacou o trabalho dos servidores da Justiça Eleitoral, mesários e equipes responsáveis pela votação e pela totalização dos resultados.
O presidente do TSE também assegurou que eventuais questionamentos apresentados pelos meios legais serão analisados e respondidos pelo tribunal.
A Justiça Eleitoral reforçou ainda que os dados da votação estão disponíveis para conferência pública. Entre os documentos acessíveis estão os Boletins de Urna, os Registros Digitais do Voto e os arquivos de funcionamento dos equipamentos, permitindo a verificação dos resultados de cada seção eleitoral.
Um dos principais argumentos apresentados por Flávio Bolsonaro na carta foi a decisão do ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF), que autorizou a continuidade da votação até as 19h em seções eleitorais que ainda estavam abertas às 17h.
O senador relacionou a prorrogação a uma suposta irregularidade na apuração, mas os dados oficiais não sustentam essa acusação.
Segundo o TSE, apenas 34.393 votos foram registrados depois das 17h em todo o território nacional. O número representa aproximadamente 0,03% dos votos válidos da disputa presidencial e é insuficiente para alterar a diferença de mais de 4,4 milhões de votos entre Lula e Flávio.
A Justiça Eleitoral também disponibilizou um painel interativo que permite acompanhar a evolução da totalização dos votos por estado, município e cargo, demonstrando como o resultado foi formado ao longo da apuração.
Aliados rejeitam acusação de fraude e defendem respeito às urnas
As declarações de Flávio Bolsonaro não receberam apoio integral das lideranças que participaram de sua campanha presidencial.
O governador reeleito de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), afirmou compreender a indignação do senador, mas defendeu o reconhecimento da vitória de Lula e a atuação da oposição dentro das instituições democráticas.
Tarcísio declarou que o processo eleitoral chegou ao fim e que os partidos devem concentrar esforços na construção de uma oposição política responsável. Ele também afirmou ter aconselhado Flávio a permanecer no Brasil após a derrota.
O senador Rogério Marinho (PL-RN), que coordenou a campanha presidencial de Flávio Bolsonaro, adotou posição semelhante. Questionado sobre as denúncias de fraude, afirmou não possuir provas que permitam sustentar essa acusação.
Marinho classificou a manifestação como um desabafo de alguém que se considera injustiçado e declarou que não havia sido consultado previamente sobre o conteúdo da carta.
O União Brasil, partido que apoiou Flávio no segundo turno, também divulgou nota reconhecendo a legitimidade da eleição. A legenda afirmou que a votação ocorreu com lisura e que o resultado deve ser respeitado, independentemente das preferências partidárias.
O Movimento Democrático Brasileiro (MDB) reafirmou sua confiança no sistema eleitoral brasileiro e reconheceu a legitimidade da vitória de Lula.
Outras manifestações partiram da senadora Tereza Cristina (PP-MS), do prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), e do presidente nacional do PSDB, Aécio Neves. As lideranças defenderam o encerramento da disputa eleitoral e o respeito às instituições.
Aécio considerou incompreensível a postura de Flávio e afirmou que a oposição ao governo federal deve ser exercida dentro das regras democráticas.
Do lado governista, o deputado federal Paulo Pimenta (PT-RS) criticou a carta e afirmou que as declarações poderiam alimentar um ambiente de instabilidade política internacional. O parlamentar também defendeu uma mobilização de partidos e representantes da sociedade civil em favor da democracia.
A controvérsia ocorre em um momento de repercussão internacional da saída de Flávio Bolsonaro do Brasil. O senador deixou o país após uma determinação do ministro Alexandre de Moraes, do STF, que havia proibido sua viagem ao exterior e exigido a entrega dos passaportes comum e diplomático à Polícia Federal.
Em sua carta, Flávio criticou a decisão judicial e afirmou estar sofrendo perseguição política. As medidas determinadas pelo Supremo, entretanto, estão relacionadas a investigações em andamento contra o parlamentar, e não constituem condenação criminal.
Até a manhã desta quinta-feira (29), não havia sido apresentada prova capaz de demonstrar fraude no resultado do segundo turno das eleições presidenciais.
A posição oficial do TSE permanece sendo a de reconhecimento da reeleição de Lula, enquanto as manifestações de partidos e lideranças políticas indicam que a contestação apresentada por Flávio Bolsonaro não encontrou respaldo nem mesmo entre parte de seus aliados.

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