ESPECIAL | Longa espera por regulação mantém pacientes à espera de transferência na Bahia
Foto: Ilustração/IA
Por Diário do Baiano
Casos de pacientes aguardando dias ou semanas por transferências voltaram a provocar apelos e protestos; Estado aponta melhora nos indicadores, mas reconhece dificuldade nos atendimentos de maior complexidade.
A espera por uma vaga hospitalar continua sendo um dos pontos mais sensíveis da saúde pública na Bahia. Enquanto dados oficiais mostram que a maior parte das solicitações é atendida nos primeiros dias, relatos recentes de famílias em diferentes regiões revelam o outro lado do sistema: pacientes que permanecem em unidades de menor complexidade enquanto aguardam hospitais capazes de oferecer cirurgia, UTI ou tratamento especializado.
Na quarta-feira (9), familiares de uma paciente internada em Nazaré bloquearam a BA-046 para cobrar transferência para atendimento especializado. No Vale do Jiquiriçá, a família de um idoso relatou nesta semana que ele já acumulava cerca de 50 dias de espera por uma unidade com suporte para cirurgia vascular. Os dois episódios foram divulgados como apelos familiares e, até as publicações consultadas, não havia confirmação oficial de que as transferências tivessem sido concluídas.
Casos semelhantes apareceram ao longo do ano em Salvador, Feira de Santana, Itaetê, Santo Antônio de Jesus e outros municípios. Em alguns deles, pacientes morreram enquanto ainda aguardavam ou durante o processo de transferência. A ocorrência do óbito durante a espera, entretanto, não permite afirmar automaticamente que a demora da regulação tenha sido a causa da morte, conclusão que dependeria de avaliação médica e investigação individual de cada caso.
O tamanho do desafio aparece também em documentos oficiais. Em fevereiro, a Procuradoria-Geral do Estado informou ao Tribunal de Justiça da Bahia, em manifestação relacionada a um paciente internado na UPA de São Cristóvão, que 225 pacientes em estado grave aguardavam naquele momento vagas compatíveis com seus quadros clínicos. O número correspondia à situação registrada naquela ocasião e não representa o total atual da regulação baiana.
Maioria é atendida rapidamente, mas casos complexos formam gargalo
Os números apresentados pelo próprio Governo da Bahia mostram uma operação de grande escala. Em 2025, mais de 320 mil regulações foram concluídas. Segundo a Sesab, 71% dos pacientes regulados naquele ano conseguiram atendimento em até 24 horas, 81% em até 48 horas e 86% em até 72 horas.
Nos três primeiros meses de 2026, a Central Estadual de Regulação realizou 72.397 encaminhamentos. Aproximadamente 60% ocorreram nas primeiras 24 horas, segundo balanço divulgado pelo Estado em abril. Na ocasião, a média informada era de cerca de 900 encaminhamentos diários.
Em agosto, a secretária estadual da Saúde, Roberta Santana, afirmou que a Central recebia em média cerca de mil solicitações por dia e que nove de cada dez pacientes eram regulados em até três dias. Em alguns períodos, a quantidade de pedidos pode chegar a aproximadamente 1,3 mil por dia.
Esses indicadores ajudam a explicar um aparente paradoxo: o sistema pode atender rapidamente a maioria dos pacientes e, ao mesmo tempo, manter casos individuais esperando por períodos muito superiores à média.
Segundo a Sesab, a maior dificuldade está concentrada justamente nos pacientes que precisam de recursos menos disponíveis. Neurocirurgia, onco-hematologia, atendimento para leucemia e outras especialidades de alta complexidade dependem não apenas da existência física de um leito, mas de equipes, equipamentos e serviços compatíveis com o quadro apresentado.
A própria Programação Anual de Saúde da Bahia para 2026 estabeleceu como meta elevar para 89% o percentual de pacientes regulados em até 72 horas. O valor de referência utilizado no planejamento estadual era de 79,96%, registrado em 2023.
A regulação também não funciona como uma fila convencional em que necessariamente quem entrou primeiro será atendido primeiro. O médico regulador avalia gravidade, risco, necessidade assistencial e disponibilidade de uma unidade capaz de tratar aquele paciente. Uma mudança no quadro clínico pode alterar a prioridade, razão pela qual as informações registradas pela unidade onde o paciente se encontra precisam ser continuamente atualizadas.
Essa característica, porém, não elimina o impacto das esperas prolongadas. Pela norma federal que disciplina as UPAs, essas unidades são destinadas à estabilização, investigação inicial e observação por até 24 horas. Quando o problema não pode ser resolvido ali, o paciente deve ter continuidade do cuidado garantida em unidade hospitalar de retaguarda, por meio da regulação.
Quando uma pessoa passa vários dias em uma UPA aguardando transferência, portanto, a unidade acaba exercendo por período prolongado uma função para a qual não foi originalmente estruturada.
Auditoria aponta problema estrutural e Estado amplia oferta
Os gargalos da regulação já foram objeto de fiscalização do Tribunal de Contas do Estado da Bahia. Uma auditoria de monitoramento analisou o sistema entre outubro de 2020 e agosto de 2024.
O TCE-BA identificou problemas que ainda exigiam correções e, ao julgar o processo em 2025, determinou à Sesab a apresentação, em até 180 dias, de um plano de ação para enfrentar as irregularidades apontadas pelos auditores. Durante o julgamento, integrantes do Tribunal classificaram a regulação como um problema que necessita de abordagem sistêmica e acompanhamento continuado.
Documentos do próprio TCE também apontaram carências e disparidades na cobertura de especialidades e serviços entre as nove macrorregiões de saúde da Bahia, situação que pode obrigar pacientes do interior a buscar estruturas disponíveis apenas em determinados centros.
A Sesab sustenta que vem ampliando a capacidade da rede para responder ao problema. Segundo balanço divulgado pelo Estado, entre 2023 e 2025 foram abertos 1.875 novos leitos na rede estadual e contratados outros 3.706 em unidades privadas, filantrópicas e municipais. O governo também utiliza mutirões de regulação para tentar reduzir períodos prolongados de espera.
Em abril deste ano, um desses mutirões tratou de 1.388 pacientes, com maior concentração de casos em ortopedia, clínica médica, cirurgia geral, avaliação vascular e UTI adulto.
Outra estratégia é recorrer à rede complementar. Como mostrou recentemente o Diário do Baiano, hospitais privados e filantrópicos da Bahia foram contratados pelo programa Agora Tem Especialistas para realizar mais de 18 mil procedimentos pelo SUS. Embora o programa seja voltado principalmente à atenção especializada e não substitua a regulação de urgência e emergência, a ampliação dessa oferta pode reduzir parte da pressão existente sobre a rede pública.
Acesse a matéria do Diário do Baiano sobre a ampliação de procedimentos pelo SUS
Os dados disponíveis mostram, assim, duas realidades simultâneas. De um lado, centenas de milhares de pacientes conseguem transferência todos os anos e a maioria é encaminhada em até três dias. De outro, permanece um grupo menor, mas especialmente vulnerável, para o qual encontrar a combinação necessária de leito, especialidade, equipe e estrutura pode levar muito mais tempo.
Para quem aguarda ao lado de uma maca, de um familiar ou em uma unidade sem o tratamento necessário, porcentagens gerais pouco diminuem a angústia. Para o sistema de saúde, o desafio é justamente reduzir esse grupo que permanece além das médias e impedir que a busca por uma vaga transforme uma urgência médica em uma espera prolongada.

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